ABCBP

Associação Brasileira de Criadores de Bovino Pantaneiro

A fundação de uma Associação de Criadores de Bovino Pantaneiro (ACBP) é fundamental para que haja um avanço em relação ao registro da raça junto ao Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA), promovendo a valorização da raça, possibilitando a comercialização de produtos com agregação de valor (marca, indicação geográfica, indicação de origem protegida) e com isso estimulando o interesse de outros produtores em criar os animais. A associação deve ser a representação e defesa de criadores de bovinos da raça Pantaneiro; estabelecendo os padrões fenotípicos da raça, fazer o registro genealógico, reunir e cadastrar criatórios como forma de promover o desenvolvimento e o melhoramento do rebanho e incentivar os estudos sobre esses animais.


Coragem, força e paixão do Pantaneiro

Publicada em: 02/04/2014 cavalo-pantaneiro-2014

Nunca sairá da minha memória uma semana de aventuras, aprendizados e cenas inesquecíveis que passei no convívio do Cavalo Pantaneiro. Literalmente no lombo de alguns dos mais importantes exemplares dele. Pra garantir, salvei alguns gigabytes no meu smartphone que a tecnologia me ajudou a empregar até no pico da cheia do bioma, na faixa de transição doCerrado pro Pantanal, ali na região de Poconé/MT, onde nasceu essa raça. A gente ouve falar dela, mas depois que fui apresentado ali, no seu habitat natural, com a imponência que ele formou em seu fenótipo e genótipo a partir de uma seleção natural ao longo de anos, fica impossível não reverenciar essa raça equina formada aqui no Brasil pelo homem e pelo meio.

Tem um programa veiculado no SBA, no AgroCanal, chamado Haras & Raças (www.sba1.com/programas), no ar de segunda a sexta das 18h às 18h10 (horário de Brasília), que encomendou uma série de reportagens sobre essa espécie tão enigmática quanto o Pantanal. Aliás, foi ali que esse cavalo se fez a partir do cruzamento de raças portuguesas (Lusitano, em especial) e espanholas (Andaluz, sobretudo) quando da chegada dos colonizadores no século passado.

A mistura de sangues resultou num animal que foi se adaptando ao ambiente exigente e de condições diversificadas em determinadas épocas do ano. Foi durante aquelas batalhas étnicas do passado que os índios Guaicurus se apoderaram das tropas ibéricas e passaram a cultuar o cavalo como arma, transporte, companhia e ferramenta de trabalho. E isso dura até hoje, mas com um grau de estudos que tornou o Pantaneiro um cavalo morfologicamente definido e tecnicamente completo.

Na década de 1950 estudiosos começaram a identificar maior frequência dos genes que formavam o plantel pantaneiro. Durante 20 anos, foram selecionando características que gerações seguintes foram fixando com algumas aptidões e ali começou a seleção em muitas fazendas no Pantanal do então Mato Grosso (que só se dissolveu em MT e MS em 1977). Só que cinco anos antes, em abril de 1972, nasceu a Associação Brasileira dos Criadores de Cavalo Pantaneiro (ABCCP), que passou a regulamentar as características da raça, que entre tantas outras benesses apresenta rusticidade exagerada, resistência a parasitas, docilidade e o benefício de pouca exigência nutricional,  podendo se desenvolver bem nas pastagens alagadas ou, como eles chamam, no "firme", quando está tudo seco.

Daí em diante a evolução foi moderada, também porque associação e criadores precisaram de tempo para erradicar o problema da anemia infecciosa que desqualificava alguns animais para registro. Depois que conseguiram, no início do milênio, a partir de 2001, o Cavalo Pantaneiro decolou técnica e economicamente. A média de comercialização dos animais não chegava a R$ 1.500,00 por cabeça nos poucos leilões promovidos e/ou chancelados pela associação. Em 2013, o Pantaneiro contabilizou média de R$ 25 mil, com alguns picos interessantes para nomes de famílias especiais que carregam ainda hoje no sangue linhagens que deram origem às seleções que melhoraram geneticamente a raça.

E não foi porque uma novela das oito (aquelas que começavam às dez da noite) de enorme audiência tinha um casal de animais da raça na sua vinheta hansdonneriana, cinematográfica. Foi em 2009. O garanhão Debochado está vivíssimo. Aquela égua, Herança da Promissão, está mais linda ainda do que naquela abertura da novela Paraíso. E também produzindo. Ela foi comercializada naquele mesmo ano por R$ 169 mil, até hoje recorde absoluto da raça. Eu mesmo estive bem ao lado dela e de outros ícones da raça essa semana. A fama da Herança ajudou, mas no Cavalo Pantaneiro não existe essa de boniteza pra se por à mesa. A morfologia e a funcionalidade se confundem no corpo do chamado cavalo nadador que eu conheci em diversos e importantes criatórios que acolheu a mim e ao cinegrafista e parceiro Gérson "Neguinho" de Oliveira na região de Poconé.

Hoje já estou de volta ao "firme", mas nadei no lombo de um cavalo durante a semana e vi que pra aguentar o que esse animal aguenta tem de ser herói. Todos os dias.Agora, alguns exemplares serão preparados para a temporada de exposições e provas do laço ou rédeas ou qualquer outro esporte no qual ele desfila sua versatilidade e bravura, além de competitividade. Já teve um campeão nacional de rédeas e a Copa Nacional do Laço Comprido, em Campo Grande/MS, no final de 2013, foi vencida pelos matogrossenses nos lombos de Cavalos Pantaneiros. Só pra lembrar alguns mais recentes currículos.

Esses atletas ou modelos saem dos pastos secos, cascalhados ou encharcados pelas cheias do Pantanal para as pistas e vitrines dos leilões. Logo em seguida, voltam pra lida em casa, porque assim é o Cavalo Pantaneiro e quem o conduz, na sela ou em pêlo. Aliás, esse cavalo trotador de tração dianteira, de cascos fortes, ossatura fantástica, frame médio e narinas largas foi meu companheiro também por essa semana que não vou esquecer. Alguns exemplares campeões e formadores de campeões foram dedicados pelos seus criadores e/ou proprietários para que eu pudesse percorrer com eles algumas léguas cavalgando ou nadando nos corixos e vazantes. Fiquei impressionado e convencido do slogan de insuperável na água e incomparável no seco. Por isso decidi textualizar essa emoção, que misturou valentia com docilidade. Uma série especial de 10 reportagens começa a ser montada pela equipe do SBA e produtoras parceiras para mostrar o que é, o que vem sendo e onde pode chegar o Cavalo Pantaneiro. Mas na minha memória e no meu coração ele já cravou uma edição especial: a do respeito e, desde já, a da saudade.

Em Foco

* Foi tão proveitosa a semana com o Pantaneiro que conheci coisas que até então não tinha notícia. Por exemplo, fiquei impressionado com o Bovino Pantaneiro que encontrei na Fazenda Promissão, em Poconé, onde se conserva essa espécie formada a partir de raças taurinas portuguesas e espanholas e que se desenvolveu no Pantanal, exatamente como foi para formar a raça do Cavalo Pantaneiro. Também há uma reportagem especial que irá ao ar pelo SBA mostrando e contando um pouco sobre esse gado de diversas pelagens, formatos de cornos, mas de um padrão de carcaça, de peso, precocidade e adaptação que justificam um rebanho de 500 cabeças registradas em associação nacional - acaba de ser reconhecido pelo Mapa como raça bovina brasileira. Nas fotos abaixo, fêmeas paridas e touros a campo desse bovino que impressiona pelo chifre mas é de uma docilidade evidente. O Bovino Pantaneiro ainda voltará a ocupar a Enfoque com mais detalhes técnicos que apresentará essa espécie da pecuária brasileira.

   

* Outro tema que ainda vou explorar aqui, muito em breve, diz respeito à mineração, especificamente ao ouro extraído nos garimpos de Poconé. Só pra constar, depois do Estado do Pará, aquela região é a maior produtora, ao lado de Minas Gerais. Alguns exploradores estão apenas preocupados com regulamentação, já que vem aí um novo código de mineração que pode ser empecilho para extração do metal precioso, já que o subsolo do Brasil quase não pertence mais aos brasileiros que detém direito de exploração da superfície por serem donos de pedaços de terras. Mas é assunto para uma ocasião mais abrangente, porque vale a pena, principalmente pra quem não conhece esse mercado.

* Não teria espaço numa só Enfoque e não correria o risco de omitir um ou outro nome no meu agradecimento formal pela acolhida que tive nessa semana, pelos guaranás que tomamos e pelas comidas especiais que tivemos nas fazendas. Então, sintam-se todos abraçados. Foi tão especial que durante as visitas e cavalgadas mal deu tempo de ler notícia ruim que a mídia mostra. Mas foi só voltar pra terra firme que já vi de novo o caos em que está, por exemplo, o aeroporto e todas as principais vias de Várzea Grande e Cuiabá. Não sei se conseguem receber a Copa do Mundo em tão breve espaço de tempo. A coisa está tão complicada que, brincam, nem GPS funciona pra se locomover por lá. E se temos de andar, então vamos embora.


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Faz. São Jeronimo - Publicada em: 15/05/2014

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